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A naturalização da educação ignorante

Postado às 03h40 | 03 Out 2019

João Paulo Jales dos Santos. Estudante do curso de Ciências Sociais da UERN.

Somos educados de uma maneira ignorante. Nossos preconceitos, olhares e julgamentos pejorativos advêm dessa educação torpe. Não nos assusta a violência, mas sim quando se pede empatia e humanidade para com as vítimas. A opressão é estrutural, naturaliza, naturalização que é fruto de uma educação ignorante. Como somos moldados pela educação, a criação vira um hábito, uma cultura, e a cultura é uma mudança difícil, quando vem é lenta; mesmo que mudanças significativas possam ocorrer com alguma rapidez, o hábito para nos acostumarmos com tais mudanças demora, é lento, necessita ser um exercício contumaz, coisa que não é praticada por muitos.

A violência contra a mulher, o racismo estrutural contra os negros, são frutos de uma educação ignorante, de um modo de pensar e agir que acolhe a barbárie, afastando a humanidade. Ocidentais costumam sentirem ojeriza pelo tratamento virulento que minorias são expostas no Oriente, no entanto, basta um olhar com mais acuidade para se perceber que muitos dos hábitos de opressão contra minorias no Oriente, são replicados em muitos lugares no Ocidente, tendo inclusive campanhas de financiamento de grupos conservadores contra os direitos humanos. Na educação gerada na ignorância, a simplicidade é o hábito fácil a ser replicado, como a violência e a indiferença são ignorantes, são simples, por isso estão enraizadas nos costumes daqueles criados na ignorância.

A Europa há pouco tempo era tida como o último bastião dos direitos humanos, perdeu esse status no momento em que sua população tida como civilizada e avançada teve que encarar as diferenças, de um modo concreto, sobre o outro. Quando o outro era distante e não fazia parte integrante diária do cotidiano europeu, a diferença era cunhada nos discursos. A partir do momento que os valores do homem comum tiveram que conviver com o exercício cotidiano de cidadania e empatia perante a diferença, o reacionarismo tomou espaço na Europa Ocidental. A educação ignorante está em toda parte, das ilhas da Oceania até a América Latina, do sul da África até o norte avançado da Europa. É bem verdade que há diferenças enormes entre diferentes tipos de educação, e que a Europa é ainda um dos locais mais seguros para que minorias possam desfrutar de uma vida melhor, o que se ressalta é que a ignorância é um traço comum e presente entre diferentes culturas.

O desafio é aceitar o outro perante sua diferença, não sua semelhança. Aceitar pela semelhança é fácil, como aceitar pela diferença é complexo, disso advém a dificuldade de compreender o diferente Na atual onda reacionária que toma de conta da Europa Ocidental, tida como a baluarte dos princípios humanistas europeu, vê-se que o modo rude de educação não está presente tão somente na Europa Oriental, considerada por décadas como a parte atrasada do mundo europeu. Para a classe média alta e os ricos da Europa, é fácil posarem de humanistas e fieis fomentadores da alteridade, como vivem em seus micromundos, encontram maneiras de se blindarem do outro. Mas para a mulher e o homem comuns europeus, sem ter como criar espaços artificiais de afastamento do outro, a educação ignorante acaba ficando mais visível.

No Brasil e em outros países racistas, não assusta o branco bem vestido da elite política e do mundo dos negócios, mesmo que se saiba que esses costumeiramente roubam, como está tão presente no linguajar popular, o que assusta é o pobre preto ladrão. Por ser negro, acaba sofrendo da violência das estruturas racistas. Como seu roubo se dá em nível micro, portanto sendo mais imediato que o roubo praticado pelo branco rico e bem vestido, a criação ignorante recomenda praticar um duro racismo sob o negro. Mesmo o roubo do branco rico acabe causando mortes e perturbações sociais ao desviar bilhões em dinheiro de programas da rede de seguridade social, seu desvio é invisível, e no íntimo glorificado, portanto, acaba sendo tolerado.

Nas estruturas racistas, o negro, mesmo em posição de poder, precisa demonstrar constantemente que é capaz, para o branco, tão conduta não se faz preciso e nem permitida. O feminismo, incompreendido por muitas pessoas, acaba dando medo tanto em homens quanto mulheres. A ideia de igualdade de gênero, de libertação sexual e emancipação feminina, assusta aqueles educados no patriarcado. O feminismo, que não é sinônimo de machismo, defende a igualdade e equidade entre homens e mulheres, e por defender uma humanização do outro, no caso a mulher, apavora as instancias que estruturam o machismo. É muito mais fácil naturalizar a ignorância, o hábito, que é constante, é a porta de entrada para a criação opressora. Naturalizar é mais fácil, é simples, requer apenas uma mecanização naturalizada das pessoas. Como mudar requer um exercício de quebra de princípios, o susto é enorme.

Os fundamentalistas apelam aos sentimentos mais primitivos do povo, e a partir daí tentam combater as ditas heresias contra Deus e a família. “Jesus está voltando” é a frase base da hipocrisia do cristão médio. Jesus estaria voltando porque minorias estão sendo empoderadas, porque os movimentos emancipatórios são evocados. Enquanto a ignorância não era questionada no centro da opressão, “Jesus está voltando” não era frase pregada em carros e aos quatro cantos. Certamente Jesus, vítima de brutal opressão e encarado em sua época como um subversivo, vê assustado e com profunda tristeza, que aqueles que dizem serem cristãos, não conseguirem até hoje compreender a tolerância e o respeito para com a diferença.

Chega-se ao fim de 2019 num momento em que o neoliberalismo avança sem muita contestação ao redor do mundo, quando a pobreza e a desigualdade nunca foram tão gritantes, quando direitos sociais são atacados e tachados como demais para que países sustentem seus orçamentos de suas redes de seguridade social.  Para o rico bilionário, é mais fácil fazer uma ação de caridade residual na África Subsaariana, do que defender equidade em seus próprios países. Quem discursa a favor de populações empobrecidas, contra a desigualdade, por mais transparência nos gastos governamentais, por tributação progressiva, é tido como populista e nacionalista. Afinal, pelos olhos da elite, aqueles que querem sociedades mais justas e menos desiguais, são defensores do fim do capitalismo, portanto, são vozes populistas e nacionalistas, que irão trazer tormenta ao status quo do sistema.

A hipocrisia e a mentira colossal nisso tudo é somente querer silenciar aqueles que lutam por um capitalismo reformado. Como a história mostrou até aqui, e com o atual estágio avançado do capitalismo, as utopias socialistas e comunistas não passaram disso, utopias. A institucionalização do capitalismo em suas instancias política e econômica se mostrou mais eficaz. Não há chance de revolução anticapitalista em nenhum país no mundo, sociedades que se voltaram no passado contra o capitalismo, tiveram que se curvar aos princípios do liberalismo, ainda que de modo residual. Como se vive em sociedades sob a égide do capitalismo, que tolera a desigualdade, tachar como populistas e nacionalistas aqueles que lutam por um mundo com justiça social, é tentar abafar as poucas vozes que lutam por sociedades capitalistas sem maiores reacionarismos econômico e social.

No seio de toda luta contra todo tipo de opressão e desigualdade está a grosseria em torno do consenso ignorante de uma cultura inculta. A educação ignorante é opressora, criada por poucos no topo da elite, que se beneficiam por colher frutos da confiança e do apoio perante os oprimidos. A opressão, que é multi em suas naturezas sociais e culturais, é maléfica para todos, e só beneficia aqueles que estão no controle do sistema. A educação ignorante tem seu sucesso a partir de um mundo gerado na exclusão e na máxima de superioridade moral e política de poucos em detrimento de muitos. E disso, a história está cheia e repleta para contar em seus clássicos, livros, panteões e epopeias.

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